SINOPSE DO ENREDO - MOCIDADE UNIDA DA GLÓRIA

"A MUG dá as Cartas!"

 

Espírito Santo, 18 de fevereiro de 2017.

 

Caros Jurados,

Hoje escrevo estas linhas como forma de desabafo e lamento! Talvez se trate apenas de saudade da época da minha juventude onde as pessoas se conheciam de verdade, onde haviam sentimentos reais ligando uns aos outros.

Pode até parecer, mas não se trata de apego demasiado ao passado e desprezo ao futuro, afinal, as transformações são necessárias e, mais cedo ou mais tarde, essas mudanças estarão escritas na linha do tempo. Mas o que corrói a minha alma é a constatação que hoje, infelizmente, não se escrevem mais cartas. E com elas, receio, foram-se também as nossas memórias!

Uma carta não era um discurso voltado para o próprio umbigo. Era algo que se endereçava a alguém especial, como um relato que despia a vida de acessórios supérfluos, para levar ao papel apenas o que era essencial. E o que era essencial decidia-se no ato de escrever, feito artimanha para se preservar lembranças.

Ainda adolescente li uma cópia da carta de batismo do descobrimento do Brasil, cujo original fora redigido em 1500 por Pero Vaz de Caminha, para o rei de Portugal D. Manoel, e fiquei fascinado pelo relato. Ele narrava vários detalhes de um Eldorado no “Novo Mundo”, que pulavam entre frases impactantes e formavam uma imagem luxuriante, materializada no papel pelas tintas que escorriam pela pena habilidosa do escrivão de Cabral.

As notícias transportadas por carta tinham o poder de mudar a vida das pessoas e do mundo, mesmo que naquela época, cruzassem o mundo sobre o lombo de cavalos e camelos ou a bordo das embarcações, em travessias que duravam até meses antes de chegarem aos seus destinatários.

No Brasil menino, cartas redigidas e assinadas no calor histórico dos acontecimentos modificaram a trajetória da nação. As de alforria devolveram aos escravos africanos um pouco da dignidade perdida; outra foi determinante para que Dom Pedro I proclamasse a nossa independência de Portugal. E, numa cartada republicana, o império tupiniquim caiu finalmente.

Mas também havia poesia no tempo e, na magia das cartas, muitos símbolos e poucas letras se embaralhavam para desvendar as verdades mais secretas de homens e mulheres, colocando-os frente a frente com a sorte momentânea ou com seus destinos futuros. E se o futuro era um trunfo pra quem sabia jogar e decifrá-lo, o passado também não era uma carta fora do baralho.

Os senhores e as senhoras ainda se recordam das cartinhas que escrevíamos para Papai Noel quando ainda éramos crianças, sonhando com o presente desejado o ano inteiro? Hoje em dia praticamente desapareceram! Creio que o trenó do bom velhinho não conseguiu acompanhar a velocidade da tecnologia. Uma pena!

E o que falar das cartas de amor na adolescência? Com que outra linguagem se poderia escrever coisa tão pessoal, senão com aquela que vinha do fundo do mais fundo, e ao mais fundo se destinava? Que me perdoe a geração eletrônica, mas por e-mail não é a mesma coisa. É “emoticon” demais, para coração de menos!

Mas o “Moderno Mundo” se mostrou um devorador do tempo. Com o avanço e o aperfeiçoamento tecnológico, as cartas foram sendo deixadas de lado, desprezadas, perdendo valor na mesma rapidez que surgiam outras formas de comunicação. Agora temos as redes sociais com suas abreviaturas que substituem palavras inteiras e carinhas que expressam todos os tipos de sentimentos. Ninguém quer mais escrever! Vivemos nem mundo irreal onde a memória afetiva foi substituída pela memória digital! Tudo muito rápido@.com.br!

Foi bom? Claro que foi bom! Mas o correio eletrônico não tem nada de poético e romântico. O carteiro cedeu lugar a hackers trepados no lombo traiçoeiro de um cavalo de Tróia, escrevendo perigosamente torto por linhas aparentemente certas. Já nem temos a certeza de quem está do outro lado. É homem, é mulher, é criminoso? Ou se realmente é o destinatário que imaginamos, será que ele receberá nossas cartas digitais em tempo real?

Ora, além de não ter mais garantias de que a troca de mensagens é realmente segura, não nos demos por satisfeitos e agora também enviamos nossas mensagens para o espaço. Sem destino certeiro, emitimos sinais em busca de algum retorno.

Nesse vai e vem de mensagens instantâneas, e-mails e outros recursos que a tecnologia nos brindou, para onde foram as nossas memórias? Onde se esconderam as lembranças do que realmente foi importante em nossas vidas? Será que as cartas, realmente, se foram para sempre?
Somente o tempo dirá!

Por enquanto, só tenho uma certeza: eu adoraria receber uma carta novamente!

 

E vocês?

 

Com Carinho,

 

Cid Carvalho